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ARTIGO: Principais lições aprendidas no acidente de Bhopal

Resumo:

Quando: 3 de dezembro de 1984

O quê? Vazamento de 42 toneladas do gás metil isocianato (MIC) em uma planta do pesticida Sevin (1-naftol-N-metilcarbamato) da empresa norte-americana Union Carbide, matando pelo menos 4000 pessoas nas primeiras semanas e causando milhares de mortes e doenças subsequentes.

Onde: Bhopal, Índia

Evento iniciador: Vazamento de MIC e aumento de pressão dentro de um tanque de armazenamento. O dispositivo de segurança, que poderia impedir o acidente, havia sido desativado 3 semanas antes.

Aprendizados: Como medida preventiva, é preciso padronizar as normas de segurança exigindo seu cumprimento. Como medidas mitigadoras, as cidades que abrigam empresas com atividades perigosas, devem ter um plano bem elaborado de evacuação e tratamento médico (minimiza as consequências de um grande cenário de acidente como este).

ARTIGO: Principais lições aprendidas no acidente de Bhopal

Em 03 de dezembro de 1984 um dos maiores acidentes industriais da história aconteceu na cidade de Bhopal, localizada no centro da Índia, fazendo com que até hoje o nome da cidade seja uma recordação viva do quão importante é uma eficiente gestão de riscos em segurança de processos, a fim de evitar os grandes cenários de acidentes.

Na década de 70 e começo da década de 80 a Índia enfrentava o desafio de fornecer alimento à uma população que crescia em ritmo acelerado, a um preço competitivo e justo de acordo com os padrões econômicos dos consumidores. Uma das alternativas encontradas pelo governo foi incentivar a instalação de empresas que poderiam produzir especialidades químicas capazes de aumentar a produção de alimentos e ainda ofertariam uma grande quantidade de empregos. Com esta premissa, a Union Carbide Corporation (UCC), empresa norte-americana, instalou sua fábrica com a parceria do governo indiano e a subsidiária Union Carbide India Limited (UCIL), além de investidores privados.[1]

A operação base da UCIL era produzir Sevin, um pesticida largamente utilizado por fazendeiros na Índia, tendo como matéria prima principal o gás metil isocianato (MIC).

Alguns estudos apontam, com base na disposição estrutural da fábrica, magnitude do acidente e depoimentos de ex-funcionários, que o desastre foi iniciado devido ao entupimento de algumas linhas com sujeira, a partir do momento que um operador iniciou o procedimento de liberar água de limpeza nestas linhas. A água, após ser impedida de escoar no sentido original, devido à sujeira acumulada, retornou no sentido inverso, e começou a se espalhar por toda a tubulação conectada da fábrica. Em um certo momento, essa água chegou até o interior de um dos tanques de armazenamento, com 42 toneladas de MIC que ficavam enterrados, com o objetivo de proteger a matéria prima do forte calor da Índia. A reação entre H2O e MIC é extremamente exotérmica e pode originar, caso o MIC atinja 200ºC, o Cianeto de Hidrogênio (HCN), um gás extremamente letal.

Todos os sistemas e equipamentos de segurança da fábrica falharam ou foram desligados dias antes de acontecer a tragédia, por exemplo: os indicadores de pressão do tanques na sala de controle não estavam apontando o valor real, o sistema de refrigeração dos tanques havia sido desligado semanas antes para reparo e a fábrica continuou a operar e o purificador de gases projetado para filtrar possíveis gases tóxicos ao ambiente também estava fora de funcionamento, além do fato de que, mesmo que estivesse operando, não suportaria a quantidade de gás que vazou.[2]

Todos esses fatores somados resultaram inicialmente na morte de aproximadamente 4.000 pessoas, e doenças ou mortes posteriores de outras milhares, o que nos indica que um grande acidente normalmente é resultados de falhas múltiplas.

A UCC fez um acordo com o governo indiano e pagou um total de $2.200 às famílias daqueles que morreram, e quantias variadas de acordo a severidade para aqueles que contraíram doenças ou algum tipo de deficiência.[3]

De acordo com o relatório oficial divulgado pela UCC, porém, um funcionário deliberadamente adicionou água ao tanque de MIC, iniciando todo o evento trágico, sem existir a possibilidade de evitar/minimizar os estragos com os sistemas de segurança da época. [4]

A UCC vendeu sua parte da planta de Bhopal em 1994, e desde então o governo local tem reunido esforços para finalizar a limpeza do pátio que sofre com contaminação até hoje. Testes de incineração do material deixado para trás começaram a ser realizados em 2015, contudo ainda não há uma previsão para completa limpeza do site ou de áreas próximas e rios contaminados devido à liberação inadequada dos produtos químicos por parte da empresa.[5]

Em 1999 a Dow Química comprou as ações da UCC, e atualmente defende que todas suas subsidiárias devem seguir à risca os preceitos de Responsible Care®[6]; um acordo entre todos os associados da American Chemistry Council (ACC), que envolve ações de prevenção e cuidado referentes a saúde, segurança dos colaboradores e das comunidades em que as empresas estão inseridas,[7][8] fazendo com que a principal lição aprendida com o desastre de Bhopal (padronizar e seguir normas rígidas de segurança) seja aplicada na prática e tenha efeitos significativos.

Referências:

[1] BROUGHTON, Edward. The Bhopal disaster and its aftermath: a review. Environmental Health Journal, 2005.

[2] NATIONAL GEOGRAFIC. 1984: Toxic Gas Leak in Bhopal. Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=yZMKAKSMFcY>. Acesso em 04 Jan. 2018.

[3] STORAGE DOW. Civil Appeal nº 3187-88 of 1998, Union Carbide Corporation Ltd versus Union of India & Others, 1998. Supreme Court of India Civil Appelate Jurisdiction. Disponível em <http://storage.dow.com.edgesuite.net/dow.com/Bhopal/Aff%2026Oct06%20of%20UOI%20in%20SC%20in%20CA3187%20n%203188.pdf>. Acesso em 04 Jan. 2018.

[4] BROWNING, Jackson B. Union Carbide: Disaster at Bhopal. Report of Union Carbide Corporation, 1983.

[5] BHOPAL. Bhopal Gas Tragedy Information. Disponível em: http://www.bhopal.com/. Acesso em 04 Jan. 2018.

[6] DOW. Statement of The Dow Chemical Company Regarding the Bhopal Tragedy Disponível em < https://www.dow.com/en-us/about-dow/issues-and-challenges/bhopal>. Acesso em 04 Jan. 2018.

[7] RESPONSIBLE CARE. A Commitment do Health, Safety and Security. Disponível em www.responsiblecare.americanchemistry.com. Acesso em 04 Jan. 2018.

[8] AMERICAN CHEMISTRY. Member Companies. Disponível em <https://www.americanchemistry.com/Membership/MemberCompanies/>. Acesso em 04 Jan. 2018

[9] Kalelkar, ASHOK S. Investigation of large-magnitude incidents: Bhopal as a case study. The Institution of Chemical Engineers, 1988.

Autores: Patrícia Nascimento e Renato Carvalho

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